Luciene Félix (org.) Conte Comigo
Lançado em 19-03-07 na ESDC, o livro: Luciene Félix (org.) Conte Comigo -
a maior comunidade de auto-ajuda do OrkutPrefácio de Jean Lauand - Do real para o virtual e do virtual para o real: um livro pioneiro
“Eu sou eu e minha circunstância...”. A genial sentença de Ortega y Gasset – que costuma ser citada só pela metade – torna-se, na verdade, um alerta e quase um ultimato, quando a consideramos em sua formulação completa: “Yo soy yo y mi circunstancia y si no la salvo a ella no me salvo yo”. Se essa advertência é já quase centenária , o homem de hoje, mais do que nunca, se defronta com a urgência da necessidade de abrir-se para o outro, de voltar-se para o outro, de salvar o outro, sob pena de não se salvar a si mesmo.
Hoje, mais do que nunca, tanto na dimensão pessoal como na social, o egoísmo mostra-se falido: é infinitamente mais eficaz investir em salvar o outro . Nesse sentido, uma de nossas mais sensíveis jornalistas, Eliane Brum – por ocasião do lançamento do projeto “Fazer o bem, faz bem” na Revista Época –, diagnosticava: “Não é possível adiar por mais um ano. Quem não pensa e age para melhorar o mundo será atropelado pela História” .
Essas considerações, dizíamos, valem em nível social e também para o indivíduo. Sem o amor, nada somos: deve ser tomada a sério esta afirmação do apóstolo Paulo, em I Cor. 13, uma das mais célebres exortações ao amor: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, seria como bronze que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, mas não tivesse amor, eu nada seria.:.”.
Esse capítulo 13 é precedido de uma consideração muito importante: depois de comparar a comunidade cristã à unidade de um corpo, no qual um membro não pode se desentender dos demais (“O olho não pode dizer à mão: ‘Não necessito de ti’; a cabeça não pode dizer aos pés: ‘Não tenho necessidade de vós” I Cor, 12, 21), o Apóstolo enuncia o segredo da solidariedade humana: a “sym-pathía” e a "syn-khairía" (I Cor, 12, 28).
Essas duas palavras gregas, infelizmente, perderam-se em nosso idioma, o que nos torna mais difícil divisar e vivenciar as realidades para as quais esses vocábulos apontam: synkhairía simplesmente não existe, e “simpática” é aquela moça que achamos legal, mas não é bonita... Em sua força original, porém, simpatia é a participação no sofrimento de outrem; sentir as suas dores como se fossem minhas e, do mesmo modo, a synkhairía é vivenciar a alegria do próximo como se fosse minha: que falta faz essa palavra, que é, por definição, o antônimo da inveja. Nessas duas atitudes (ou duas faces da mesma atitude) se resume todo o ideal de humanidade.
É neste contexto que se situa o belo e sugestivo livro, organizado pela Profa. Luciene Félix: "Conte Comigo" - A maior comunidade de auto-ajuda do Orkut. O livro recolhe experiências humanas de solidariedade – de sympathía e synkhairía – realizadas num ambiente inédito: uma comunidade do Orkut.
Encontramo-nos, assim, com uma obra que constitui um fato novo: um autêntico marco no mundo editorial: Dizia o velho Heráclito que é o mesmo e único o caminho que sobe e o caminho que desce; Luciene traz de volta para o bom e velho livro, para a informação organizada e disponível para todos os leitores, a experiência humana dispersa em infovias.
A comunidade “Conte Comigo” é uma das mais notáveis desse fenômeno que é o Orkut. O Orkut conta hoje com 45 milhões de participantes e – é um fato intrigante, que chama a atenção dos sociólogos – a maioria absoluta são brasileiros! O brasileiro é dado ao relacionamento, à abertura, ao interesse (sadio ou não) pelo outro. E participam da “Conte Comigo” mais de meio milhão de inscritos. Nela, as pessoas partilham suas dores, suas preocupações, seus problemas - com essa simplicidade encantadora, com essa “ingenuidade brasileira” que não tem medo de se expor, potenciada pelo meio virtual. São casos como o do adolescente que sofre o preconceito por ser bissexual; o da moça que passa por um período de depressão; o de outro que sofre a perda de um amor, de um ente querido ou mesmo de um animal de estimação, etc. etc. etc. E nessa grande praça ou “sala de estar” virtual, estabelece-se uma con-versação (um mútuo verter-se) uma comunhão, uma sym-pathia.
Luciene Félix nos oferece neste livro uma criteriosa seleção de tópicos (dos cerca de 2000 postados nestes dois anos de existência da comunidade), mantendo as postagens originais (com pequenas supressões repetitivas e correções ao internetês), que nos confrontam com dores e alegrias dos participantes, com perplexidades e dúvidas, enfim, com a condição humana, os dramas e as tramas da vida.
Se o meio virtual pode potenciar em alguns usuários uma certa agressividade, pela própria impessoalidade do relacionamento; para outros – e é bem o caso dos participantes da “Conte Comigo” – fomenta sentimentos de solidariedade e de comunhão. Nessa solidariedade, realiza-se uma profunda experiência antropológica (que, aliás, não passa despercebida aos postantes), e que Frankl resumia dizendo: a felicidade é uma porta que abre para fora; se tentamos abri-la puxando para dentro, emperra. Já a sabedoria do Evangelho (Lc 9, 24) advertia: quem quiser salvar sua vida, perdê-la-á... É quando nos voltamos para o outro e, por assim dizer, nos esquecemos de nós mesmos, que verdadeiramente nos encontramos e nossos problemas diminuem. E a obsessiva busca de si é, por sua vez, destruidora em vários setores da existência.
Se com a generosidade todos saem ganhando, o principal beneficiário da generosidade é quem a pratica...
São Paulo, 20 de fevereiro de 2007
Jean Lauand
Prof. Titular FEUSP
jeanlaua@usp.br