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Lao-tsé, a Linguagem e a Educação
Inty Scoss Mendoza
Em outro artigo abordei as relações entre a obediência implícita à virtude de respeito filial, xiào, e o processo de aquisição da escrita dos caracteres chineses. Aqui procurarei empreender um raciocínio semelhante relacionando agora as peculiaridades da escrita ideográfica ao pensamento taoísta de Lao-tsé.
Enquanto que o confucionismo possui um claro projeto pedagógico, o pensamento de Lao-tsé segue no sentido contrário rejeitando não só a “pedagogia” quanto a própria idéia de um “projeto educativo”. Em muitas passagens do Tao Te King (ou Dào dé j?ng) o sábio é aquele que “cumpre os atos sem atuar”, “pratica a doutrina sem falar”, e assim as “dez mil coisas operam sem serem impedidas”, “nascem sem serem possuídas” e “atuam sem serem dominadas” (capítulo 2) . Nada mais distante da intencionalidade pedagógica ou da aspiração de transformação social de que ambicionam tanto o projeto confucionista quanto as modernas concepções educativas. Faz-se necessário, contudo, algumas considerações sobre peculiaridades desse pensamento e da figura de Lao-tsé.O Velho e sua não-obra
O sábio taoísta Lao-tsé – ou Lao-tzu, ou ainda Laozi, dependendo do sistema de romanização adotado – , o Velho (l?o) sábio, é uma figura semi-lendária. Certos autores desconfiam de sua existência atribuindo sua obra a um movimento de pensamento existente no período anterior à primeira unificação do império na dinastia Qin (221 a 214 a.C.), sendo, então fruto de um grupo de pessoas e não de um único sábio. Outros o situam em um período posterior ao de Confúcio (551 a 479 a.C) (YANG 1986, p. 245) pois as referências no Tao Te King à não valorização do conhecimento e dos letrados – “não primando os bons, o povo não compete” (capítulo 3) – seria um crítica ao confucionismo já presente na sociedade. Outros ainda consideram-no contemporâneo de Confúcio, tendo nascido em 580 a.C. no estado de Chu e sido historiador nos arquivos imperiais, cargo esse que teria abandonado para se tornar recluso em sua terra natal a partir de uma determinada fase da vida, quando teria escrito o Tao Te King (CHEN 2000, p.19).
A tradição religiosa taoísta, ao contrário, não trata Lao-tsé como um ser humano comum, mas como um imortal cuja gestação durou 81 anos, viveu um período entre os homens e tendo percebido o grau de afastamento da sociedade da época do Tao, do princípio que rege todo o universo indistintamente, resolveu partir. Montado em um touro, uma das representações mais famosas de Lao-tsé, foi em direção da fronteira oeste do império. Chegando lá foi interpelado pelo guarda da fronteira que o reconhecendo pediu que deixasse um legado de sua sabedoria. Lao tsé teria escrito, então, o Tao Te King, uma obra que logo no seu início deixa claro a que veio: “o Tao que pode ser explicado não é o Tao eterno” (Tao Te King, capítulo 1).
Nessa obra, Lao tsé não diz o que o Tao é, mas justamente o que não é: O Tao é aquele que não é explicado, que age não-agindo, que governa não-atuando, que é um não-vaso dentro do espaço vazio de um vaso, a não-montanha dentro do vazio de um vale. Poderíamos dizer que o Tao Te King é uma não-obra, pois seu maior valor está no que não-diz, no espaço vazio entre as palavras, permitindo o contato com a sabedoria que é diferente do conhecimento: “não ao estudo e foi-se a inquietação” (idem capítulo 20). Diferentemente do projeto confucionista em que o estudo tem um valor fundamental, para Lao tsé: “no estudo, dia-a-dia se cresce; no Tao, dia-a-dia se decresce” (idem capítulo 48).
Não há, portanto, uma idéia de educação, mas sim uma idéia de não-educação, em que deve-se evitar os refinamentos teóricos ou retóricos – “quem sabe não fala, quem fala não sabe” (idem capítulo 56) – e buscar a essência:
Por isso o governo do homem santo
esvazia os corações
sacia as entranhas
enfraquece as vontades
vigora os ossos
nunca deixa o povo com saber e desejos
não deixa o sábio atuar.
Atuando o não-atuar então não há desgoverno.
(idem capítulo 3)A educação do não-atuar e a escrita que não fala
Como empreendido na abordagem que relacionava características da escrita ideográfica e o pensamento confucionista, poderíamos relacionar o taoísmo e os problemas de linguagem surgidos na escrita não fonética. Os caracteres chineses, diferentemente do alfabeto fonético, não dizem nada, literalmente, poder-se-ia dizer que eles mostram algo, contudo, esse mostrar não se trata de uma representação direta do que se quer comunicar, mas de um universo de relações possíveis a partir de múltiplos componentes. Outra característica da língua chinesa, particularmente da estrutura do chinês clássico em que foi escrito o Tao Te King, é o fato de que as palavras cumprem funções gramaticais baseadas unicamente em sua posição na sentença, ou seja, uma mesma palavra pode ser substantivo, adjetivo ou verbo, dependendo de sua posição relativa às outras. O melhor exemplo disso é a já citada primeira frase da obra, que no original repete três vezes a palavra Tao:
dào ke dào feichang dào
A palavra Tao (ou Dao) pode ser traduzida por caminho ou curso, o que permite uma tradução como a de Sproviero: “o Curso que se pode discorrer não é o eterno curso”.
No caso, o primeiro Tao é o “curso” e o segundo é o que se discorre, isto é, o que se “cursa”, havendo essa distinção de substantivo e verbo unicamente pela posição da mesma palavra “Dào” na frase. Some-se a isso a característica não-fonética da escrita e temos um texto que não se comunica de maneira direta nem no nível de seus componentes básicos (caracteres) nem em sua estrutura (funções gramaticais). É, de certa forma, um texto que nada diz, e por isso mesmo, pode dizer mais que qualquer outro.
A grande distinção desse clássico taoísta para os textos confucionistas está justamente nessa exploração consciente do não-dizer da escrita chinesa, pois não é a fala que está registrada, é uma outra forma de comunicação, o que não quer dizer que o texto não possa ser lido e recitado. Cada caractere tem sua pronúncia específica em cada dialeto e paradoxalmente sua estrutura permite uma fácil memorização e transmissão oral, mas continua não sendo uma fala registrada, mas uma estrutura complexa distante da linguagem falada. Talvez por isso Lao-tsé tenha escrito: quem sabe não fala, quem fala não sabe.
Esse distanciamento do universo da linguagem falada tão estranho a uma cultura como a nossa em que pensamento e fala se confundem em um mesmo termo, logos, só é possível quando o recurso de uma escrita não-fonética está disponível. Essa escrita ainda é convencional, compartilhada por todos que tiveram acesso a ela, o que cria um universo comunicativo comum que não depende da palavra falada ou mesmo do som. Somos, em nossa cultura ocidental, dependentes da fala, do argumento, da exposição, para a comunicação de idéias, enquanto a cultura chinesa não depende em absoluto de tais questões, pois ela consegue se comunicar sem nada dizer, o que não significa o silêncio.
Não é necessário explicar o Tao ou a vida, mas olhar para uma escrita-que-nada-quer-dizer contida em todas as não-coisas e presente em todos os não-momentos. Para que falar? Mesmo Confúcio em todo o seu esforço de educar a sociedade, um dia disse: “Desejo não mais falar”, e quando questionado por um discípulo temeroso de não mais poder receber os ensinamentos completou: “O Céu fala? E mesmo assim as quatro estações seguem seu curso e centenas de criaturas continuam a nascer. O Céu fala?” (Os Analectos 17.19).
Se pudéssemos sintetizar um conceito de educação dos ensinamentos taoístas, o que não seria fácil, poderíamos pensar em uma educação do não-atuar, em uma visão de que os não-lugares e os não-momentos possíveis somente para um estado interior que se descola do burburinho das palavras são os mais educativos. Seria pensar em uma educação que não se propõe educadora ou transformadora, mas que “gera sem possuir, atua sem depender, preside sem controlar” (Tao Te King, capítulo 10), pois como o Céu e a Terra que perduram “por não viverem para si”, “por isso o homem santo ficando atrás, sobressai; ficando fora, persiste” (idem capítulo 7).
Na sabedoria sintetizadora da cultura chinesa o taoísmo e confucionismo mesmo possuindo enfoques tão diversos podem se reconciliar no processo de amadurecimento de um ser humano, sendo o rigor e a obediência confuciana reservada à infância e à juventude, momento em que é necessário voltar-se conscientemente à aquisição da escrita, da formação moral. Ao taoísmo fica reservada a libertação da velhice, momento em que os pontos extremos da vida se tocam, em que volta ser possível um saudável desprendimento em relação às solicitações da vida social, um desapego às noções de honra ou desonra, presentes na primeira infância. O taoísmo é brincalhão e zombeteiro em relação ao sisudo confucionismo, e se a escrita chinesa pode estar associada aos rigores do último, sua multiplicidade também permite à alma alçar vôo e rir das próprias limitações inerentes à língua humana.Referências bibliográficas
LAO-TSÉ. Escritos do Curso e sua Virtude. Tradução: Mario Bruno Sproviero. São Paulo: Mandruvá, 1997.
CHEN, Qing. ????? [História da Filosofia Chinesa]. Beijing: Yuyan Wenhua Daxue, 2000.
CONFÚCIO. Os Analectos. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
YANG, Xianbang org. ?????? [História Geral da Filosofia Chinesa]. Beijing: Universidade Popular da China, 1995.