Gosto se discute - A validade da estética kantiana para a crítica contemporâneaLuiz Costa Pereira Junior
É o terreno baldio de todo profissional do gosto ou da opinião compartilhada – o crítico na imprensa, o professor na sala de aula, o filósofo da estética, o jornalista cultural, o psicólogo, até o gourmet. Se indico um livro, esculhambo um filme, elogio um videoclipe ou deprecio uma instalação, se emito parecer que depende do prazer ou desprazer que sinto ante as coisas, por que alguém concordaria comigo? Sabendo que o prazer estético é diferente do prazer ordinário do agradável ou da saciedade de desejos, como traduzir o que sentimos? Lidar com categorias como gosto, prazer e sensação pode ser vago para quem quer que sua opinião prevaleça e, por mais argumentativa, minuciosa e sincera, toda crítica é a ponta de um iceberg particular. Daí a intuição geral de que “gosto não se discute”.
Mas, como futebol e religião, gosto se discute, sim senhor. Desde a Antigüidade, e a discussão está longe do fim. Ainda mais para quem se aventura num mundo que já faz poesia sem papel e fotografia sem filme, em que formas clássicas da narração parecem saturadas; ninguém mais se escandaliza com a autofagia vanguardista; a internet ataca a noção de autor; a mídia e a universidade dão como obra-prima o que nem sempre o é e basta um computador bem programado para qualquer um bancar o Picasso.
Não é casual o esforço de teóricos e filósofos recentes de encontrar um norte estético e atualizar os clássicos para investigar a complexidade de fenômenos da arte. Como lembra a historiadora e filósofa Kathrin H. Rosenfield, em Estética:“Novas formulações e conceitos adaptados aos interesses atuais não devem ocultar o fato de que a crítica de arte das últimas décadas alimenta-se, explícita ou implicitamente, dos conceitos das estéticas sistemáticas, adotando-os ou transformando-os segundo suas necessidades” (ROSENFIELD, 2006: 55)
Foi assim que muitos chegaram a Immanuel Kant (1724-1804), ao livro Crítica da faculdade do juízo (1790), por ver nele a abordagem de questões ainda válidas para a crítica 1. Gostaria de chamar a atenção para uma das revisões de sua obra, a de Jean-François Lyotard (1913- ). Em Lições sobre a analítica do sublime, o filósofo francês se assume “respeitosamente desrespeitoso” com Kant. Desconfia que o julgar estético kantiano encerra algo mais palpável que sua própria doutrina: a “maneira (mais que o método)” como opera o próprio raciocínio crítico 2.
Kant foi fruto de um período particularmente agitado da Europa, marcado por movimentos intelectuais que se firmaram com a idéia de que só é saber genuíno aquele que se pode checar pela experiência. A razão, sabia ele, segue um comando lógico supremo: para cada coisa condicionada, busca a totalidade absoluta de condicionantes. Nunca nos contentamos com a primeira resposta. A razão pede explicação total, a enumeração exaustiva de respostas remissivas. Ela forma juízos sintéticos “a priori”, frutos do entendimento (faculdade de estabelecer regras e conhecer por conceitos) obtido pela experiência (o verificável).
Mas a filosofia teria sido instada a fazer juízo sobre tudo, do mundo sensível ao supra-sensível. Por isso, ficou “dogmática”, desviou-se, indica Kant em Crítica da Razão Pura (1781). Os metafísicos tiveram a pretensão de conhecer Deus, a alma, a liberdade, o mundo. Por limitação da experiência, é impossível conhecer o supra-sensível, a causa mais remota de tudo. Como diz Gérard Lebrun em Sobre Kant, uma teologia não tem nada a esperar da documentação que a natureza oferece. Se o supra-sensível é determinável, o será de modo diferente da operação de determinação na natureza .3
É o tipo de cautela que a filosofia parece lidar com maior tranqüilidade hoje em dia. Basta lembrar o resgate da teologia promovido por Josef Pieper, para quem filosofar também é “olhar para a totalidade do mundo”, conhecer algo “até o fim”, tudo o que a razão tem capacidade de pensar, o que inclui o supra-sensível 4. Mas Kant vivia outro momento, de convulsões européias que instalavam uma nova civilização material, e importava libertar o homem das instituições arcaicas e explicações metafísicas. Assim, Kant viu como desgarrada a filosofia que pensa como fenômeno até o que não seria da alçada da experiência, mas do supra-sensível. Sobre esse aspecto, diz François Châtelet em Uma história da razão a respeito do modo de pensar dos intelectuais da época de Kant, que emergiram da burguesia esclarecida:“Quando se analisa a realidade natural, não através das experiências comuns, porém, cada vez mais precisamente, através de experimentações controladas, percebe-se que a natureza obedece a leis ora simples, ora complexas. Não há, nesse campo, regras gerais. É a natureza tal como a descobrimos através da experimentação que deve comandar, e não um pensamento prévio, preconcebido.” (CHÂTELET, 92)
A filosofia se desgarra ao não se limitar à investigação da natureza, conclui Kant. Sem conhecer seus limites, tende à contradição. É preciso criticar, censurar, disciplinar a razão pura metafísica. Limitar seus poderes (o poder de conhecer não é ilimitado) é estabelecer o que é legítimo ao pensamento racional: o campo dos fenômenos.
Só a crítica da razão pura (a que conhece sem intuir, por conceitos) é real crítica. Daí Kant criar tipos de perguntas que limitem a possibilidade de conhecer aos horizontes da experiência. É o que chama de Filosofia Transcendental, a teoria dos limites da razão (propedêutica). Transcendental em oposição a particular e intransferível: conclusão a que chegaria sobre um fenômeno qualquer pessoa, em toda parte e tempo, desde que repetida a experiência nas mesmas condições.
Embora desenvolva um sistema de respostas, Kant põe o de perguntas em primeiro plano. A razão, assim, teria interesses de comando: o que posso saber? O que devo fazer e o que me é permitido esperar? Como devo ter prazer? Kant não elabora propriamente teses sobre o que é, mas sobre o que se deve fazer. Não lhe interessa tanto saber algo das coisas, mas controlar o processo de conhecer; saber como se sabe, não necessariamente o que se sabe. Há regras para isso: para conhecer os objetos da experiência (a razão, objeto de Crítica da Razão Pura), para agir bem (o sistema moral, em Crítica da Razão Prática), para ter prazer (o juízo estético e o sublime, em Crítica da faculdade do juízo).
A faculdade de julgar é uma relação receptiva com o mundo, é reflexão (não determinação, ou seja, não é uma resposta automática aos fenômenos). É um sentimento de prazer ou desprazer, um deixar-se levar por um objeto particular, sem interferência de conceitos. Refletir é não ter uma resposta pronta. No juízo determinante, se já se conhece a regra que domina um dado ou objeto, a resposta que a gente dá a eles é automática, habitual, uma qualidade adquirida; no reflexivo é o oposto: só do contato é que extraio a regra, a resposta não é automática, depende de reflexão.
No enunciado “Paulinho da Viola é compositor”, pensamos numa estrutura de mundo com substância e acidente. Tal coisa fixa no tempo (Paulinho da Viola) tem tal determinação (compositor). Pensamos em substância + predicado (determinação). O que é dito pode ser verdadeiro ou falso a um sujeito transcendental (“permanente”). Juízos morais também são determinantes (há uma regra interiorizada por mim, que me diz “devo fazer”, a qual recorro em situações similares). Mas há totalidades cujo sentido não se reduz a um conjunto determinado, nem a normas de conduta.
O supra-sensível não é determinável. Os fenômenos da natureza, são. O comportamento social, idem. Mas o gosto e o prazer, não. Estão no horizonte da experiência, mas não são supra-sensíveis nem determinados. O que serão? O prazer não pode ser determinado pela razão, não é verificável em qualquer tempo e lugar por qualquer um que repita a experiência. Ao dizer “a música de Paulinho é bonita” não anuncio uma determinação, nenhuma propriedade do objeto. O predicado não é objetivo, não ajuda a conhecer o objeto, só o modo como alguém reage a ele. “Se o prazer estiver ligado à simples apreensão da forma de um objeto da intuição (se relação da forma com conceito), então representação não se liga ao objeto, mas ao sujeito”, escreve Kant .5
O enunciado tem a mesma validade que teria quem dissesse “a música de Paulinho da Viola é bonita porque ele é carioca”. Não faz sentido concordar ou não com tal juízo, pois o sujeito que o emite não é transcendente (não vai além de uma dada pessoa e provavelmente um carioca bairrista). A beleza não é determinação da substância. Ou predicado objetivo. O juízo não é verdadeiro ou falso.
O prazer que tenho pelos sentidos é o do agradável, sensorial. No julgamento reflexivo há o efeito, subjetivo, de agradável, mas o que se está sentindo é algo objetivo, um dado de sensação (ver o mar, por exemplo), que tem lá sua lei. Cada julgamento reflexivo é particular, segue suas regras. Mas, se cada um pensar uma lei para si, analisa Kant, haverá tantas formas múltiplas sobre a natureza quanto habitantes no planeta. Embora não determinante, o juízo estético diz respeito ao modo como um “eu” determina o objeto.
Mas, “eu” quem, cara pálida? Um parecer estético é reflexivo, mas comporta pretensão ao universal, aquilo que se consegue comunicar aos outros. Deve-se, então, descobrir universalidade, necessidade, finalidade no subjetivo. Para haver universalidade é preciso supor em todo mundo um senso comum. “Com que direito?”, pergunta Michèle Crampe-Casnabet, em Kant: Uma revolução filosófica6 . O que nos autoriza a perguntar: o que um sujeito comunica quando enuncia, por exemplo, “a música é bonita” é só a sua posição pessoal e intransferível, não é? Um subjetivo racional é possível?
Kant remete o prazer do gosto ao acordo de faculdades de conhecimento: a de apresentar e a de conceber, imaginação (que seleciona o que se percebe) e entendimento. O prazer é alcançado quando se percebe, de imediato, o jogo entre as duas faculdades; a coincidência entre pensamento e sentimento, num só instante.“Na verdade, aquela apreensão das formas na faculdade da imaginação nunca pode suceder, sem que a faculdade do juízo reflexiva, também sem intenção, pelo menos a possa comparar com a sua faculdade de relacionar intuições com conceitos. Ora, se nesta comparação a faculdade da imaginação (faculdade das intuições a priori) é sem intenção posta de acordo com o entendimento (faculdade dos conceitos) mediante uma dada representação e desse modo se desperta um sentimento de prazer, nesse caso o objeto tem que então ser considerado como conforme a fins para a faculdade do juízo reflexiva” (KANT, 1993A: 34).
No gosto, a relação entre parceiros de faculdade é livre (não submetida a conceitos) e “sem intenção” (espontânea), “desinteressada” (um estado de suspensão dos interesses). Tal liberdade não é desenfreada porque harmônica, do contrário se desgarra (racionaliza-se ou vira fantasia). O sujeito estético, portanto, não é individual. É o jogo entre imaginação e entendimento. Quem está na “posição” de “jogador” percebe o jogo espontaneamente, e terá um dado prazer, que é estético, transcende o pessoal. A voz universal, o senso comum, é a coincidência espontânea do entendimento + imaginação. Por isso, o motivo do juízo estético não é um sentimento, nem regra do juízo, diz Raymond Bayer, em Historia de la Estetica. “É um peculiar estado de ânimo, que resulta da harmonia das faculdades” . 7
Em Lições sobre a analítica do sublime, Lyotard mostra como esse estado de ânimo se materializa no procedimento crítico. Pretende uma interpretação de Crítica da Faculdade do Juízo (1890) distinta da temática, “correta”, mas por demais “confiante na letra”, que se contenta com o que Kant propôs explicitamente (restabelecer a unidade da filosofia pela idéia reguladora da finalidade da natureza). A atualidade da Terceira Crítica ocorreria por outro motivo.
“Juízos estéticos são apenas sensações encaradas como juízos”, avisa o filósofo francês8. A sensação não tem finalidade racional, não dá informação sobre objeto, mas sobre o sujeito. Ao julgar, o sujeito está informado do próprio estado. O “estado de espírito” afeta o pensamento enquanto pensa. A reflexão é o estado de espírito no qual nos preparamos para descobrir as condições subjetivas que nos permitem chegar a conceitos. A reflexão pura, diz Lyotard, é a capacidade de o pensamento ser informado imediatamente de seu estado por esse mesmo estado e sem critérios diferentes do sentimento9 . Prazer e desprazer são estados de espírito e informação que o espírito recolhe sobre seu estado, ao mesmo tempo e num só instante. O pensamento se sente pensar.
O pensamento é puramente refletido quando não tem de antemão os conceitos que sempre usa. O prazer puro que ele é não tem nada que buscar senão a si mesmo. Faz sentido. Por princípio, a posição crítica deveria descobrir, não esclarecer. Precisa falar como se fizesse uma descoberta, não como se confirmasse o que sabe (não há o que investigar quando já sei o que vou encontrar). No jornalismo, condenamos quem parte para a reportagem com a “notícia pronta”, só aproveitando a informação que confirma sua tese. É preciso estar reflexivo se não quero que conhecimento e condições prévias me levem a prejulgamentos e conclusões que tive antes de ver a obra. Prazer ou desprazer devem ser puros ou se tornariam farsantes.
Por isso, diz Lyotard, o pensamento deve observar uma “pausa” – o ato de suspender a adesão ao que se crê saber. Pausa é um sentimento a priori: ponho uma sensação a bloquear o que sei. Mas só se fala sobre algo conhecendo alguma coisa antes; do contrário, sem conhecer nada, se suspender tudo o que sei, sequer me interesso por ele. “Você não me procuraria se já não me tivesse encontrado”, argumenta Lyotard10 . Devemos nos orientar pela obra como se vagássemos pelo desconhecido, só conhecendo os pontos cardeais. O raciocínio deve, então, sentir o quanto precisa armazenar para legitimar o julgamento. Este “quanto” é o que Lyotard chama de “domicílio”, aquele mínimo de conhecimento sobre alguma coisa. O pensamento quer, tão logo sente seu pensamento, domiciliar uma síntese na razão. Não é difícil. O complicado é saber para onde vou ao fazer a pausa. Qual posição vou adotar para começar a estabelecer meus argumentos?
Algo me agrada ou não. Tal sentimento é um princípio de diferenciação, ocorre de imediato (na pausa) e subjetivamente (sem princípios objetivos). O pensamento pode então usar o entendimento para conhecer um objeto estético, pois já definiu a priori o que lhe agrada. O juízo encontra sua referência no entendimento, pois se legitimou junto ao gosto.
A sensação vai existir em estado puro até que uma síntese elementar é exigida pelo ato de conhecer. Para estabelecer “domicílios”, conceitos da reflexão (os que não determinam o fenômeno), precisamos repatriar os conceitos que foram mantidos no campo do entendimento. Algo nos diz que tal representação deve alojar-se no entendimento ou na sensibilidade. Quem faz isso é a reflexão: o pensamento sente que está sintetizando. Descarto em meu julgamento o que não for universal (só mantenho o que, se comunicado, todos entenderão) e necessário (se acompanharem meu raciocínio, necessariamente vão sentir o mesmo). O que não só eu observo, mas quem repetir a experiência.
Um julgamento estético é, assim, emitido por uma unidade coerente, um ser organizado, que “exclui a atribuição do prazer a um sujeito” 11. Como nos pomos na pele desse “sujeito transcendente”? Ao perceber o jogo entre entendimento e imaginação, temos um sentimento determinado. Se alguém sentir o mesmo no jogo entre faculdades será um “sujeito estético”. Ele se torna “objetivo”, chega à síntese, a das promessas de unidade 12.
Para a reflexão, a única síntese pertinente é a que põe em relação as faculdades em jogo na mente 13. É aí que a visão diante de uma tela terá relação com conceitos com que a penso. Qualquer um, independentemente de lugar e tempo, vai verificar o mesmo se eu me concentrar no que me é apresentado (a forma). Tudo o que pode ser pensado sobre o quadro deve estar sugerido pela visão dele. Tudo o que posso dizer sobre ele pode ser verificado ao vê-lo. O melhor acordo entre as faculdades é quando, libertas das imposições do conhecimento e da moral, elas põem uma a outra o desafio de se apropriar daquela forma que causa prazer / dor. Quando isso ocorre, é assinalado um prazer desinteressado, não utilitário, válido a todos. O prazer será então necessário (não pode ser contestado). O sentimento desse tipo de prazer faz o entendimento brincar. Por isso, diz Lyotard, entre as faculdades de conhecer e desejar, fazendo a ponte entre elas, há a de julgar.
O juízo se torna “objetivo” quando se refere à forma do objeto. Preciso encontrar na obra uma tautegoria (identidade entre forma e conteúdo, entre objeto e lei, a regra necessária que ele emite). A consciência de que a forma do objeto se reflete na imaginação e esta entra em harmonia com o entendimento, provoca o prazer estético. A beleza não está na coisa (não há objetos, pessoas, cenários ou produtos belos ou feios), nasce da concordância de nossas faculdades. O juízo é dado pela forma que agrada ou desconforta. Trata-se de deixar a forma do objeto refletir-se na imaginação, sem uma faculdade ser censurada pela outra.
Gostar ou desgostar depende não só de uma avaliação racional. Há interesses, repertório cultural de quem critica, a trajetória de vida de cada um. Até seu estado de ânimo entra em jogo – o impacto de uma briga familiar, o salário insuficiente, os aborrecimentos profissionais, a violência urbana, tudo pode pesar. Por isso, o bom crítico deve fazer esforço para manter o lastro dado pela forma. Só ela satisfaz a condição de universalidade: o que é comunicável não é uma essência, mas a condição subjetiva do conhecimento. A finalidade da forma é quando o que se vê é um fim em si mesmo.
Uma das características da mente é a de se aproximar das coisas com um propósito. A falta de finalidade que há no estético seria um paradoxo para Kant, mas sua resposta é que o belo tem finalidade sem fim (percebida independentemente da existência de finalidade). A beleza está na conformidade aos fins, não da razão ou da moral, mas do próprio objeto ou dado observado. Não há outra finalidade a não ser manter o estado de ânimo.
A idéia de que as coisas tenham finalidade, diz Gérard Lebrun em Sobre Kant, não nos faz conhecer nada, mas funciona como um princípio que regula a unidade final da natureza, permitindo interpretar as coisas do mundo como se inclusas em plano sábio14 . As belas artes são apreciadas quando a finalidade fabricadora não mais transparece nelas. Quando a obra vira “realidade” para nós, e não a encaramos como mero “produto”, encontramos sua finalidade. É o que ocorre na natureza: não é evidente nela como Deus a fez. A experiência estética relaciona a obra à natureza. O problema da perspectiva kantiana da beleza talvez seja esse: ela supõe uma opinião a que todos se encaixarão se puserem as faculdades em jogo (como se uma visão apenas fosse possível, uma só na natureza). De fato, por muito tempo deram-se “finalidades” à beleza (reproduzir a Idéia platônica, o Deus medieval, a natureza). Mas a história mostrou, lembra Adolfo Sánchez Vázquez, em Convite à Estética, que o belo é excludente. Exclui não só o feio, como o trágico, o grotesco, o sublime e o cômico, tudo o que não é harmônico e ordenado, mas ainda é estético 15. O próprio Kant abre uma brecha para a asfixia do belo ao dar destaque para o sublime em sua Crítica.
É muito própria a relação das faculdades no sentimento sublime. O gosto sente prazer ou desprazer, atração ou retração por uma forma, a proporção. No sublime há tudo ao mesmo tempo agora: a desproporção assusta e atrai, causa dor e prazer. O céu estrelado acima de mim aniquila a minha importância, somos um simples ponto no universo, diz Kant em Crítica da Razão Prática. O que se experimenta não é a boa proporção das faculdades, mas seu desacordo, um abismo que humilha a imaginação, incapaz de dar conta da visão com que se depara. É o absolutamente grande, a quantidade em estado puro, uma presença que excede o que o pensamento pode apreender, de um só golpe, numa forma16 .
Ora, se não posso dar forma, se não dá para explicar o que vejo, apelo ao absoluto. Vejo na natureza algo que me leva para fora dela, algo absoluto. O fenômeno faz a gente pensar na morte, na pequenez da existência, em sua finalidade. Diante das pirâmides ou de uma tempestade, não entra em questão uma imagem: o sublime impõe dor. É como na moral, que faz o jogo da dor, da obrigação, não do prazer.
A imaginação fica esmagada. Sofre humilhação parecida com a de quem se submete a uma vontade superior. Nessa hora, tentamos nos apegar a algo. A razão se eleva até a idéia de uma totalidade que poderia ser abarcada. O prazer do sublime vem da paralisia de quem percebe as forças vitais. Por isso, ao sentimento negativo se segue um pensamento positivo, a sensação de que nossas forças vitais são invencíveis. Sentimos que perseguimos fins mais altos, irredutíveis aos fins sensíveis. Para além da sensibilidade, há de se ser bom.
O estado de pensamento na reflexão promovida pelo sublime, dirá Kant, descobre a pureza de uma máxima. Uma sensação exultante vinda de a razão estar simplesmente bem, livre, em contato com algo universal. A mesma coisa ocorre quando vemos uma obra genial. Sentimos prazer com o gênio: produção individual, sua obra é manifestação do universal, diz Crampe-Casnabet17 . Sua vontade não é a finalidade da obra. O fim da obra é ela mesma, sua forma, sua existência.
O livro de Kant requisita uma finalidade para a faculdade de julgar: ela mesma. Só porque há esse horizonte final para o julgamento reflexivo é que o pensamento se autoriza a pensar como leis da natureza são partes de um sistema da experiência. Por isso, não haveria nada na natureza desprovido de fim, dirá Kant.
Com isso, a leitura de Lyotard sobre a Crítica do Juízo traduz a “maneira”, não o método kantiano, para perguntar como sentimentos podem orientar a atividade crítica. Para Lyotard, a faculdade do julgar estético unifica o campo filosófico (a razão e a moral) não porque expõe a idéia de uma finalidade objetiva da natureza. Mas por colocar em questão a maneira reflexiva de pensar que está no texto crítico inteiro. O único juízo de fato a priori é o estético. A sensação não ocorre só no momento em que digo “gosto” ou “não gosto”. Ela ressurge a cada ocorrência do pensamento. Por um efeito: o pensamento “sabe” o estado em que se acha no momento em que ocorre. A sensação, a percepção, é representação acompanhada de consciência. Ela transita pelos diferentes movimentos que o pensamento crítico executa. A cada ocasião nada impede que o pensamento se sinta .18
A sensação, não a teleologia (a investigação sobre a finalidade), cumpriria o projeto kantiano de unificação, de estabelecer um sistema filosófico coerente. Interessa a Lyotard o que Kant nos fala sobre a interferência dos sentidos no ato de pensar. O sentimento está no pensamento enquanto ele pensa. É pressuposto de qualquer pensamento. Estético ou não.
Notas
1. As obras de Kant usadas como consulta à discussão estética deste ensaio são Crítica da Faculdade do Juízo. Tradução de Valério Rohden e Américo Marques. Forense Universitária, São Paulo, 1993 e Observações sobre o sentimento do belo e do sublime. Papirus, São Paulo, 1993.
2. LYOTARD, J. Lições sobre a analítica do sublime. Papirus, São Paulo, 1993.
3. LEBRUN, Gérard. Sobre Kant. São Paulo, Iluminuras-Edusp, 1993, p. 90.
4. PIEPER. J. Que é filosofar? Que é acadêmico? EPU, São Paulo 1981, p. 23
5. KANT, E. Crítica da Faculdade do Juízo. Tradução de Valério Rohden e Américo Marques. Forense Universitária, São Paulo, 1993, p. 34.
6. CRAMPE-CASNABET, M. Kant: uma revolução filosófica. Zahar, Rio de Janeiro, 1994, p. 85.
7. BAYER, Raymond. Historia de la estética. Fondo de la Cultura Económica, México, 1993, p. 206.
8. LYOTARD, op. cit., p. 38.
9. LYOTARD, op.cit., p. 18.
10. LYOTARD, op. cit. 45.
11. LYOTARD, op. cit., p. 22.
12. LYOTARD, op. cit., p. 25.
13. LYOTARD, op. cit. p. 28.
14. LEBRUN, Gérard. Sobre Kant. São Paulo, Iluminuras-Edusp, 1993, p. 80.
15. VÁZQUEZ, A.S., Convite a Estética, tradução Wilson Baptista Soares. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1999, pp 38 e 65.
16. LYOTARD, op. cit., p. 56.
17. CRAMPE-CASNABET, M. op. cit., p. 88.
18. LYOTARD, op. cit., p. 19.
CHÊTELET, François. Kant, pensador da modernidade. In: Uma história da razão (entrevistas com Émile Noel). Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1994. SANTAELLA, Lúcia. Estética: de Platão a Peirce. Experimento, São Paulo, 1994.