RELIGIÃO - Obra de Deus
João Paulo Martins
Entrevista a Jean Lauand
Belo Horizonte, 17--04-06
De numerário a crítico
Após o sucesso de O Código Da Vinci, surgiram muitos livros e programas televisivos baseados nos temas polêmicos tratados na obra de Dan Brown. No Brasil, foi lançado o livro Opus Dei, Os Bastidores, pela Editora Verus, de autoria de Dario Fortes Ferreira, Jean Lauand e Márcio Fernandes da Silva, apresentando uma análise crítica acerca da atuação do Opus Dei no Brasil, através de depoimentos de ex-membros, incluindo os próprios autores.
O escritor Jean Lauand, professor de Filosofia e História da Educação na Universidade de São Paulo (USP), foi numerário do Opus Dei Brasil durante 35 anos, e concedeu entrevista exclusiva ao DIÁRIO DA TARDE.DT O livro apresenta uma opinião de como são cooptados os jovens que seguirão o caminho de numerários no Opus Dei. Como isso ocorre?
JEAN LAUAND O mais interessante é descrever o caso típico. É a minha história e a de tantos outros, que no livro se recolhe sob o título "Como se Fabrica Um Numerário". Tudo começa num belo dia em que o governo nacional do Opus Dei (também chamado de Obra), pressionado por Roma, decide pressionar os diretores dos centros em busca de números de vocações. Tudo no Opus Dei se contabiliza obsessivamente em números: pessoas que vão ao centros de formação, quotas de venda de livros, quotas de doações em dinheiro e até ¨vocações¨.
O diretor repassa a lista de rapazes que freqüentam o centro e a ¨vocação¨ vai ser definida de maneira fria e pragmática. Por exemplo, ele fala com o numerário Miguel, que diga a Rafael (rapaz ¨vocacionado¨) que ¨apite¨ (ou seja, entre para a Obra). Também o padre Pedro (o sacerdote do Centro que atende a meia hora de direção espiritual semanal do Rafael) entra no jogo: Miguel e padre Pedro começam simultaneamente a lançar indiretas para Rafael. A pressão psicológica só para quando ele apita.
Para que Rafael chegasse a esse ponto, foram necessários alguns meses de ¨trato¨. Sua história típica é a do rapaz de 15 anos que foi ¨conhecer o Centro¨, levado por um amigo ou colega, para fazer um curso ou uma atividade qualquer, que servem como ¨isca¨ inicial. No centro, o Rafael encontra um ambiente sério, com gente simpática, que sorri para ele e se interessa intensamente por saber quem ele é, quais são seus hobbies etc. Se o hobby dele for Astronomia, dentro de poucos dias ele encontrará diversos numerários interessadíssimos em Astronomia, talvez até fundem um ¨Grupo de Astronomia¨ no centro, enfim: a ¨imersão de amor¨, tal como é praticada na seita Moon.
Mas na fase em que começa a freqüentar o centro, a Astronomia de Rafael é a coisa mais importante deste planeta e de outros! Rafael está felicíssimo! Finalmente encontrou gente que o compreende mesmo. Até aí, nada de Opus Dei. Como na Obra tudo se calcula na base do custo/benefício, Miguel vai pedir que Rafael corresponda, e o convida para assistir a uma palestra. Só que não é uma palestra sobre Astronomia. É uma palestra do padre Pedro.
Já estamos começando o famoso ¨plano inclinado¨ (gíria interna para indicar os passos da trajetória espiritual de envolvimento com a Obra): meditação, conversa e confissão com o sacerdote, visita aos pobres de uma favela (para que ele se sinta um egoísta), retiro num final de semana etc.
Rafael está em lua-de-mel com o Opus Dei quando o diretor manda que Miguel lhe diga que tem vocação. O sacerdote também diz a Rafael que ele só será feliz na terra e no Céu se disser sim à chamada de Deus para ser numerário, vivendo o celibato apostólico, numa entrega total a Cristo. Ele, perplexo e pressionado acaba pedindo para ¨apitar¨. O próximo passo será conversar com o diretor do Centro e o restante da história encontra-se em vários depoimentos, como os que recolhemos no livro.
DT Quando percebeu que a vida de numerário não condizia com o que esperava dela?
LAUAND Embora eu visse, ao longo dos anos, muitas coisas erradas, prevaleciam em mim as crenças de que a Obra era de Deus. Num certo momento, surgiu um conflito concreto, que me colocou numa situação de consciência muito perigosa: eu dispunha de uma dispensa para comprar e ler os livros que quisesse. Um dia, o diretor do centro me proibiu de comprar os livros de que eu necessitava para dar minhas aulas de Filosofia na USP, e assim, cortou o ¨privilégio¨ de usar livremente cerca de 5% de meu salário para comprar esses livros. Eu deveria consultá-lo (ele era engenheiro), em cada compra. Junto a isso minha desobediência por procurar e conversar com ex-membros e não aceitar as esfarrapadas versões oficiais que os diretores davam sobre suas saídas da Obra. Autênticas barbaridades, como no caso do professor Haae Kiim, da USP. Os diretores de seu ex-centro se ocuparam de zerar sua conta bancária antes de ele sair. Indignado, fui interpelando todos os diretores envolvidos no caso, até que me proibiram de continuar procurando os diretores. Foi então que decidi sair.DT Como saiu do Opus Dei?
LAUAND Não foi fácil. Espiritualmente, desde que ¨apitei¨, acostumei a crer que a Obra é de Deus e fui bombardeado com milhares de horas de palestras neste sentido. Depois, o santo fundador assegura que todos os que saem são traidores e os amaldiçoa dizendo que comprometem seriamente a felicidade nesta vida e na outra. Além disso, você sai sem um tostão e tem de começar a vida do zero. Você vai ser desprezado por toda a sua rede de amigos, pois o Opus Dei induz a que você só tenha amizades que vinculadas à Obra. Mas eu saí porque queria salvar minha alma e para poder continuar sendo católico. Como li uma vez, os do Opus Dei são ¨praticantes não-católicos¨.DT Vocês receberam alguma retaliação por parte do Opus Dei após a publicação do livro?
LAUAND Sim, emitiram notas e textos que difundiram amplamente a partir de suas sacristias. Mas o tom geral é o de não responder aos pontos concretos e limitar-se a repetir que os Papas aprovaram o Opus Dei e que seu fundador foi canonizado e, portanto, essas críticas só podem provir do ressentimento, de inimigos da Igreja etc. Eles adoram o genérico e fogem como o diabo da cruz da discussão de pontos concretos.DT Como vê o tratamento dado ao Opus Dei pelo livro O Código Da Vinci de Dan Brown?
LAUAND Por trás de erros e exageros grosseiros (como numerário monge), Dan Brown acerta em alguns aspectos de fundo da motivação dos membros. O membro da Obra tem absoluta convicção de que a Prelazia é de origem divina: tudo é válido para promover o crescimento da Obra. O importante é cumprir as metas e quotas previstas pelos diretores e se, para isso, for necessário camuflar a verdade, ela será camuflada. A mentalidade de que tudo na Obra é de Deus e por Ele, produz nos membros da Obra uma atitude fanática e impiedosa.