à página principal (Prof. Jean Lauand)
Fundamentos Filosóficos da Educação I - 1o. sem. 2011 - Jean Lauand    jeanlaua@usp.br  HP: http://www.jeanlauand.com/

Aula 7  -  O verbo depoente A voz média

Texto base: LAUAND, Jean   Antropologia  e Linguagem , São Paulo: CEMOrOc-USP,  2010. pp. 47-51.

As línguas antigas dispunham de uma fantástica terceira voz: a voz média. Emprega-se a voz média para ações que não se enquadram propriamente na voz ativa nem na voz passiva. Quer dizer que há ações que não são ativas nem passivas? É, é isto mesmo! O verbo nascer por exemplo não é ativo nem passivo: eu nasço ou sou nascido? Sim ,certamente sou eu que nasço, mas não exerço ativamente esta ação...; por isso o inglês fala do nascer na passiva: I was born in 1987. O mesmo acontece, por exemplo com o morrer: a ação é minha, mas não é minha... A língua espanhola procura suprir a lacuna da voz média, tornando reflexivos verbos que em português não o são: Yo me muero etc. As necesidades fisiológicas em espanhol são muito acertadamente voz média

É curioso ver o português empregar para falar de psicóticos verbos como surtar em voz ativa... Putz, na hora em que ele me cobrou eu surtei. O cara me surta no avião...  Ou expressões como "perder o rebolado"

As canções de Paulinho da Viola trabalham muito com esse conceito de voz média; como no samba “Timoneiro”, do qual procede o maravilhoso verso: "Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar..."

Timoneiro (áudio)  (P. Viola - Hermínio Bello de Carvalho, 1997)

Não sou eu quem me navega               Quem me navega é o mar          É ele quem me carrega                  Como nem fosse levar
E quanto mais remo mais rezo             Pra nunca mais se acabar           Essa viagem que faz o mar em torno do mar
Meu velho um dia falou                        Com seu jeito de avisar              "Olha, o mar não tem cabelos      Que a gente possa agarrar"

Timoneiro nunca fui                               que eu não sou de velejar           O leme da minha vida                      Deus é quem faz governar
E quando alguém me pergunta              como se faz pra nadar                Explico que eu não navego                 quem me navega e o mar

         A rede do meu destino  parece a de um pescador                  Quando retorna vazia vem carregada de dor
          Vivo num redemoinho, Deus bem sabe o que Ele faz                     A onda que me carrega, ela mesma é quem me traz

Deixa a vida me levar  Autores: Serginho Meriti e Eri do Cais
Eu já passei por quase tudo nessa vida              Em matéria de guarida espero ainda minha vez
Confesso que sou de origem pobre                   Mas meu coração é nobre, foi assim que Deus me fez
E deixa a vida me levar (vida, leva eu)               Sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu
Só posso levantar as mãos pro céu                    Agradecer e ser fiel ao destino que Deus me deu
Se não tenho tudo que preciso                         Com o que tenho, vivo
De mansinho, lá vou eu                                    Se a coisa não sai do jeito que eu quero
Também não me desespero                             O negócio é deixar rolar
E aos trancos e barrancos, lá vou eu                E sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu
E deixa a vida me levar (vida, leva eu)

Há coisas sugestivíssimas em latim: são voz média: nascer (nascor), morrer (morior); falar (loquor: é falando com você que eu falo comigo mesmo); esquecer, confessar (confessando eu me arrependo) etc.
O Oriente não é passivo é Voz Média:      As artes Marciais Eugen Herrigel    O bailarino não baila é bailado
A educação: educar, "eduzir" (conduzir para fora) nem é colocar algo em um sujeito, nem é abandoná-lo a si, mas dar condições ao educando (num processo que não separe educador de educando - educação é sempre comunhão...) de extrair de si... Com isso, educador-e-educando simultaneamente aprendem e ensinam... Entre a repressão e a indiferença (o educando entregue a si mesma); a educação é essencialmente um processo de voz média.
Meditari (e não meditare - ativo). Na verdade, o "eu medito" só é autêntico quando, ao mesmo tempo, "eu sou meditado". E se não somos capazes de entender isto, somos incapazes também de compreender o que é a meditação. E a mística desencontra-se quando cai para o ativismo ou para o passivismo: a verdadeira mística é a da voz média... O Tao é uma forma de integração não de passividade



Voltar à página principal (Prof. Jean Lauand)