ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA - Aula 2 24(/26)-08-09
Texto base: "Voz ativa, passiva ou média", in Filosofia, Linguagem, Arte e Educação, S. Paulo, ESDC, 2007, pp. 185-188.
O verbo depoente A voz média
As línguas antigas dispunham de uma fantástica terceira voz: a voz média. Emprega-se a voz média para ações que não se enquadram propriamente na voz ativa nem na voz passiva. Quer dizer que há ações que não são ativas nem passivas? É, é isto mesmo! O verbo nascer por exemplo não é ativo nem passivo: eu nasço ou sou nascido? Sim ,certamente sou eu que nasço, mas não exerço ativamente esta ação...; por isso o inglês fala do nascer na passiva: I was born in 1987. O mesmo acontece, por exemplo com o morrer: a ação é minha, mas não é minha... A língua espanhola procura suprir a lacuna da voz média, tornando reflexivos verbos que em português não o são: Yo me muero etc. As necesidades fisiológicas em espanhol são muito acertadamente voz média
É curioso ver o português empregar para falar de psicóticos verbos como surtar em voz ativa... Putz, na hora em que ele me cobrou eu surtei. O cara me surta no avião... Ou expressões como "perder o rebolado"
As canções de Paulinho da Viola trabalham muito com esse conceito de voz média; como no samba “Timoneiro”, do qual procede o maravilhoso verso: "Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar..."
Timoneiro (áudio) (P. Viola - Hermínio Bello de Carvalho, 1997)
Não sou eu quem me navegaA rede do meu destino parece a de um pescador
Quem me navega é o mar
É ele quem me carrega
Como nem fosse levarE quanto mais remo mais rezo
Pra nunca mais se acabar
Essa viagem que faz o mar em torno do mar
Meu velho um dia falou
Com seu jeito de avisar
"Olha, o mar não tem cabelos
Que a gente possa agarrar"Timoneiro nunca fui
que eu não sou de velejar
O leme da minha vida
Deus é quem faz governar
E quando alguém me pergunta
como se faz pra nadar
Explico que eu não navego
quem me navega e o mar
Quando retorna vazia vem carregada de dor
Vivo num redemoinho, Deus bem sabe o que Ele faz
A onda que me carrega, ela mesma é quem me trazDeixa a vida me levar Autores: Serginho Meriti e Eri do Cais
Eu já passei por quase tudo nessa vida Em matéria de guarida espero ainda minha vez
Confesso que sou de origem pobre Mas meu coração é nobre, foi assim que Deus me fez
E deixa a vida me levar (vida, leva eu) Sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu
Só posso levantar as mãos pro céu Agradecer e ser fiel ao destino que Deus me deu
Se não tenho tudo que preciso Com o que tenho, vivo
De mansinho, lá vou eu Se a coisa não sai do jeito que eu quero
Também não me desespero O negócio é deixar rolar
E aos trancos e barrancos, lá vou eu E sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu
E deixa a vida me levar (vida, leva eu)Há coisas sugestivíssimas em latim: são voz média: nascer (nascor), morrer (morior); falar (loquor: é falando com você que eu falo comigo mesmo); esquecer, confessar (confessando eu me arrependo) etc.
O Oriente não é passivo é Voz Média: As artes Marciais Eugen Herrigel O bailarino não baila é bailado
A educação: educar, "eduzir" (conduzir para fora) nem é colocar algo em um sujeito, nem é abandoná-lo a si, mas dar condições ao educando (num processo que não separe educador de educando - educação é sempre comunhão...) de extrair de si... Com isso, educador-e-educando simultaneamente aprendem e ensinam... Entre a repressão e a indiferença (o educando entregue a si mesma); a educação é essencialmente um processo de voz média.
Meditari (e não meditare - ativo). Na verdade, o "eu medito" só é autêntico quando, ao mesmo tempo, "eu sou meditado". E se não somos capazes de entender isto, somos incapazes também de compreender o que é a meditação. E a mística desencontra-se quando cai para o ativismo ou para o passivismo: a verdadeira mística é a da voz média... O Tao é uma forma de integração não de passividade