Fundamentos Filosóficos da Educação I - 1o. sem. 2011 - Jean Lauand
14-2-2011 Notas da Aula2: Píndaro: Memória e Filosofar. (pp. 23 a 28 do livrinho)
O homem, um ser que esquece1
O homem é um ser que esquece!
Se perguntássemos à milenar tradição do pensamento pelos fundamentos da Antropologia, os antigos dar-nos-iam esta sentença - tão simples - para meditar: "O homem é um ser que esquece"!
No Ocidente, já entre os gregos (de Hesíodo a Aristóteles, de Safo a Platão), encontramos constantemente um extraordinário papel dado à memória (por vezes personificada em Mnemosyne).
Um dos pontos altos dessa tradição dá-se - 500 anos antes de Cristo - com o poeta grego Píndaro. Seu Hino a Zeus - um poema que é, ao mesmo tempo, um tratado de educação - parece apresentar todas as características de uma das maiores obras-primas de todos os tempos.
A cena descrita por Píndaro é clara: Zeus resolve intervir no caos. Toda a confusão e deformidade vai, então, dando lugar à harmonia e à ordem: kosmos.
E quando, finalmente, o mundo atinge seu estado de perfeição (estreando a terra, os rios, os animais, o homem...), Zeus oferece um banquete para mostrar aos demais deuses - atônitos ante tanta beleza - a sua criação...
Mas, para surpresa geral, um dos imortais pede a palavra e aponta a Zeus um grave e inesperado defeito: estão faltando criaturas que louvem e reconheçam a grandeza divina desse mundo... pois o homem é um ser que esquece!
O homem, ele que foi agraciado pela divindade com a chama do espírito, o homem, afinal, saiu mal feito, mal acabado, ele tende ao embotamento, à insensibilidade... ao esquecimento!
É a partir dessa constatação - dessa trágica constatação de nossa condição ontológica (também ela, hoje, esquecida...) - que se edifica toda a educação ocidental.
As musas (filhas de Mnemosyne), as artes, são já uma primeira tentativa de Zeus para remediar essa situação: elas foram dadas pela divindade ao homem como companheiras, para ajudá-lo a lembrar-se... E é por essa mesma razão que os grandes pensadores da tradição ocidental consideravam as descobertas filosóficas, não tanto um deparar-se algo novo ou insólito, mas, precisamente, des-cobertas: trazer à tona algo já visto, já sabido, mas que, por essa entrópica tendência para o esquecimento, não permanecera na consciência.
Assim, a missão profunda da educação não é a de apresentar-nos o novo, mas, algo já experimentado e sabido que, no entanto, permanecia inacessível: precisamente o que se expressa com a palavra lembrar.
Claro que ao afirmar o caráter esquecediço do homem, não estamos dizendo que ele se esqueça de tudo, mas, principalmente - e é até uma constatação de ordem empírica - do essencial. Pois, na verdade, o homem lembra-se de muitas coisas: naturalmente, ele, "criatura trivial" (como diz Guimarães Rosa), não se esquece da data do depósito bancário, não se esquece de comprar sua revista predileta, da final do campeonato, nem das comezinhas realidades que compõem nosso rotineiro quotidiano.
Esquece-se, sim, da sabedoria do coração, do caráter sagrado do mundo e do homem...
Se esse "jeito esquecido de ser" é tido, como dizíamos, no Ocidente, por uma característica básica do ser humano; na tradição oriental, por sua vez, tal consideração é ainda mais radical.
Na língua árabe, desde tempos imemoriais, a própria palavra para designar o ser humano é Insan. A surpreendente profundidade desse vocábulo torna-se manifesta quando dirigimos nossa atenção para seu significado literal: Insan - deriva do verbo nassa/yansa, esquecer -, e significa aquele que esquece.
A agudeza oriental, ao designar o homem por Insan, o esquecente, vê-se confirmada pelo fato de que o próprio falante, em seu dia-a-dia, não se dê conta disso.
Daí a proverbial sentença árabe: Wa ma sumya al-insan insanan illa linissyanihi ("O Insan, ser humano - o esquecente - foi chamado de Insan por causa de seu esquecimento").
Naturalmente, há na formulação original, um delicioso jogo de palavras, como se disséssemos em português, com Drummond: "O imposto chama-se imposto, porque nos é imposto".
Não é de estranhar, pois, que, no Alcorão (20, 50-52), Deus se apresente - em contraposição ao homem - como "Aquele que não esquece". E o mesmo acontece na Bíblia, quando, pelo profeta, o próprio Deus diz: "Pode, acaso, uma mulher se esquecer de sua criança de peito?... Ainda que ela se esquecesse, Eu não me esqueceria de ti" (Is 49,15).
Só a partir dessa consciência de que o homem é esquecediço, é que se pode edificar, dizíamos, uma educação digna desse nome. Nesse sentido, os antigos desenvolveram uma pedagogia - hoje esquecida e incompreendida -, a pedagogia do dhikr, a pedagogia do lembrar, a pedagogia baseada na sabedoria do povo, nos ritos, nos provérbios, na memorização, nos gestos, nas festas...
Mas o Hino de Píndaro – e continuamos seguindo Pieper – nos dá também pistas metodológicas. As grandes intuições,as grandes experiências que podemos ter sobre o homem não costumam permanecer totalmente disponíveis a nosso saber consciente. Pode ocorrer que brilhem com toda a viveza por um instante na consciência e depois, sob a pressão do quotidiano, comecem a desvanecer-se, a cair no esquecimento... Seja como for, não é que se aniquilem (se se aniquilassem não restaria sequer a possibilidade de filosofar...), mas se transformam, se tornam...: instituições, formas de agir do homem e linguagem.
Estes são os três "sítios" (para usar uma metáfora da arqueologia) onde o filósofo deve penetrar para recuperar o que tinha sido oferecido na experiência. É neste ponto que radica a própria possibilidade da Antropologia Filosófica, enquanto busca do resgate desse plus. Uma busca pelo plus que se encerra em instituições – Pieper o faz em suas análises da instituição "universidade" -, no agir humano – por exemplo nas análises do ato de filosofar ou do ato poético, que remetem ao próprio centro da antropologia - e na linguagem.
Desse plus, fala-nos também a mais importante poeta brasileira da atualidade: Adélia Prado expressa esse plus de visão nos tão sugestivos versos de seu poema "De profundis" :
De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
Vale a pena transcrever agora o parágrafo inicial de Offenheit für das Ganze, no qual, antes de refletir filosoficamente sobre a instituição universidade, Pieper resume a essência de suas idéias metodológicas. As grandes experiências estão escondidas nas grandes instituições (e podemos acrescentar: na linguagem e nos modos de agir dos homens):
As grandes instituições costumam ser a expressão de grandes experiências, de experiências que estão como que vazadas nessas instituições e, conseqüentemente, um tanto escondidas nelas. Esta é precisamente uma das razões pelas quais é tão difícil dizer cabalmente em que consiste o verdadeiro significado das instituições que condicionam e emolduram a vida humana. Com o simples atentar para o aspecto aparente, histórico-concreto do fenômeno, não se pode decifrar o que elas realmente são e devem ser; para fazê-lo, é necessário penetrar, através de um paciente e cauteloso esforço de interpretação, naquelas experiências, intuições e convicções que se incorporaram nas instituições e que as fundamentam e legitimam. Porém, quando se trata das grandes experiências que o homem tem consigo mesmo e com o mundo, das experiências que condicionam sua vida, não se pode dizer que elas possam ser apanhadas e formuladas facilmente, uma vez que não estão de modo algum ao alcance imediato da consciência reflexiva. Sabemos muito mais do que aquilo que somos capazes de exprimir de improviso, em palavras precisas, num determinado momento. E talvez aconteça que o que digamos de fato passe à margem de nossas verdadeiras convicções. [...] Precisamente as nossas certezas mais vitais - as que atingem nosso fundamento e o do mundo, de que temos tanta segurança que por elas orientamos nossas vidas - estão fadadas a se transformarem logo em existência viva; se tudo segue seu caminho normal, convertem-se em vida vivida, tornam-se realidades, concretizam-se. Passam, por exemplo, como dizíamos, a formar a organização estrutural das instituições, nas quais se configura e se perfaz o viver histórico do homem. Ainda que não se dêem a conhecer de modo imediato, essas experiências estão presentes e ativas, e quem queira expressá-las deve ultrapassar o que se manifesta na superfície e procurar atingi-las para, por assim dizer, retraduzi-las em forma de enunciado.
Como dissemos, Pieper ensina-nos também que essas experiências especialmente densas, que não têm brilho duradouro na consciência, que logo se desvanecem, nos escapam... mas não se aniquilam: condensam-se, escondem-se, depositam-se... na linguagem, na linguagem comum, essa que nós mesmos falamos e ouvimos todos os dias. A isto dedicaremos o próximo capítulo.
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Referências
1. Ao longo deste texto, seguimos os capítulos de Michèle Simondon "Mnémosyne, mère des Muses" in La Mémoire et l'Oubli dans la Pensée Grecque jusqu'à la fin du Ve. siècle avant J.C., Paris, Société d'édition "Les Belles Lettres", 1982; de Bruno Snell "Pindar's Hymn to Zeus" in The Discovery of the Mind - The Greek Origins of European Thought, Cambridge, Harvard Univ. Press, 1953; e, sobretudo, de J. Pieper Nur der Liebende singt, Schwabenverlag, 1988, p.35 e ss.