Antropologia Teológica - 2o. sem. 2009 - Prof. Jean Lauand jeanlaua@usp.br Aula 1 - 17(/19)-08-09 Aula 2 - 24(/26)-08-09 Aula 3 - 31-08/ 02-09-09 Aula 4 - 09-09 e 14-09 compl..
Aula 19 e 21/10 Aula 26 e 28/10: "Exercício de exegese bíblica": http://www.hottopos.com/notand16/lauand.pdf
Aula 09 e 11/11: "Ciência e Weltanschauung - a Álgebra como Ciência Árabe" em Filosofia, Linguagem...
Aula 16 e 18/11: Para a 2a. prova, este texto, que se encontra nas pp. 147 a 157 do livro:
"Torna-te o que és"Voltemo-nos, agora, para o fundamento da ética, para os antigos: o próprio ser do homem. Tal concepção pode resumir-se - também ela - numa memorável sentença de Píndaro: "Torna-te o que és!". Neste espaço, pretendemos indicar, ainda que brevissimamente, como essa mesma convicção essencial - essencial para o direito, para a filosofia, para o convívio social e para a educação - a afirmação de que a moral se enraíza no ser e até com ele se confunde - é uma convicção universalmente estendida. Ela não é apanágio da filosofia, mas encontra-se também em diversas outras instâncias: é o sentido profundo do to be or not to be shakesperiano (that is the question...), encontra-se na Comédia de Dante, na tradição confuciana; do "Torna-te..." de Píndaro às estruturas da língua tupi... Na Divina Comédia (Purg. XXIII, 31-33), ao tratar da recomposição do ser, desfigurado pelos desvios morais, encontramos este enigmático terceto:
"Pareciam-lhes os olhos anéis sem gemas
E quem no rosto dos homens lê 'homem'
Bem poderia reconhecer o M"Que significa este misterioso M? (emme que rima com gemme). O sentido desses versos é que a ação injusta atenta contra o próprio ser de quem a pratica, desfigura-o, rouba-lhe o to be, o rosto humano - poeticamente figurado, em concretismo, na palavra "OmO" (omo, na língua de Dante, significa homem).
Mencionávamos, há pouco, a célebre sentença de Píndaro que resume os fundamentos clássicos da ética: "Torna-te o que és!". Encontramos uma inesperada prova da força (e da atualidade...) desta sentença no extraordinário êxito alcançado pelo desenho "O Rei Leão". De fato, para além dos modismos e do cuidado estético, a força da fábula do Lion King encontra-se precisamente em seu centro temático, que remete a Píndaro (ao "torna-te" e também à concepção do homem como esquecente...).
Também para Confúcio - e para a tradição do Extremo Oriente, registrada não só em seus tratados sapienciais, mas até mesmo enraizada nas línguas - a moral é o ser homem (ren, em chinês / jin, em japonês), e o imoral (fei-ren / hi-nin - a grafia japonesa é idêntica à chinesa) é o não-homem, como plasticamente indica o ideograma da negação e da falsidade, da desestruturação desde dentro, da desagregação, anteposto ao ideograma ren homem.
A mesma idéia fundamental é encontrada na sabedoria da língua tupi.
Para o tupi - que usa o sufixo eté como intensivo, superlativo e índice de verdade ontológica - (e que de modo inquietante lembra, até foneticamente, a areté grega) - o homem bom moralmente é aba-eté, ou seja, o homem de verdade ou, no sentido de S. Tomás, simpliciter e ultimum potentiae. Enquanto o homem imoral é aba-ran, pseudo-homem. O drama fundamental ético-existencial do homem transcende o âmbito da filosofia acadêmica e atinge a arte popular: é apresentado até numa canção de Milton Nascimento, Yauaretê (canção-título do álbum de mesmo nome). Nessa canção, o homem dialoga com a onça yauaretê, pedindo-lhe - a ela que já atingiu o ultimum potentiae de seu ser-onça: yauar-eté - que lhe ensine o correspondente ser-homem. E aí se retoma todo o problema ético, de Platão a Sartre: o que é verdadeiramente ser homem? Maria, a onça yauaretê, já realizou a plenitude do ser-onça (que, no caso, se resume na "sina de sangrar") e o poeta, entre perplexo e invejoso, pergunta-lhe: O que é ser homem?
Entre outros versos de profunda sintonia com o pensamento clássico, diz a canção: "Senhora do fogo, Maria, Maria / Onça verdadeira me ensina a ser realmente o que sou (...) / Vem contar o que fui, me mostra meu mundo / Quero ser yauaretê / Meu parente, minha gente, cadê a família onde eu nasci? / Cadê meu começo, cadê meu destino e fim? / Pra que eu estou aqui? (...) / Dama de fogo, Maria, Maria / Onça de verdade, quero ter a luz (...) / Me diz quem sou, me diz quem foi / Me ensina a viver meu destino / Me mostra meu mundo / Quem era que eu sou?
De fato, o auge do enredo encontra-se no drama ético. O exilado leãozinho Simba é convidado ao aburguesamento, ao egoísmo e à indiferença, à recusa da estatura moral a que está chamado:
Quando - pela ausência de Simba-, a situação de opressão torna-se insuportável - o conselheiro Rafiki sai em busca do jovem leão, procurando chamá-lo à responsabilidade, evocando a figura de seu falecido pai: o leão Mufasa. E convida Simba a contemplar a imagem do pai na superfície da água.
Simba: You knew my father?
Rafiki: {Monotone} Correction - I know your father.
Simba: I hate to tell you this, but... he died. A long time ago.
Rafiki: Nope. Wrong again! Ha ha hah! He's alive! And I'll show him to you. You follow old Rafiki, he knows the way. Come on!
Look down there.
{Simba quietly and carefully works his way out. He looks over the edge and sees his reflection in a pool of water He first seems a bit startled, perhaps at his own mature appearance, but then realizes what he's looking at.}
Simba: {Disappointed sigh} That's not my father. That's just my reflection.
Rafiki: Noo. Look harder.
{Rafiki motions over the pool. Ripples form, distorting Simba's reflection; they resolve into Mufasa's face. A deep rumbling noise is heard}.
You see, he lives in you.
{Simba is awestruck. The wind picks up. In the air the huge image of Mufasa is forming from the clouds. He appears to be walking from the stars. The image is ghostly at first, but steadily gains color and coherence.}
Mufasa: {Quietly at first} Simba...
Simba: Father?
Mufasa: Simba, you have forgotten me.
Simba: No. How could I?
Para finalizar, a resposta de Mufasa, que articula os dois momentos pindáricos fundamentais: todo um programa de reconstrução moral...
Mufasa: You have forgotten who you are, and so have forgotten me. Look inside yourself, Simba. You are more than what you have become.
Simba: How can I go back? I'm not who I used to be.
{Shot of cloud-Mufasa, with glowing yellow eyes. He is framed in swirling clouds, radiating golden light.}
Mufasa: Remember who you are. You are my son, and the one true king.
{Close up of Simba's face, bathed in the golden light, showing a mixture of awe, fear, and sadness. The image of Mufasa starts to fade.}
Remember who you are.
{Mufasa is disappearing rapidly into clouds. Simba runs into the fields trying to keep up with the image.}
Simba: No. Please! Don't leave me.
Mufasa: Remember...
Simba: Father!
Mufasa: Remember...
Simba: Don't leave me.
Mufasa: Remember...
(Fonte: http://www.lionking.org/~ryan/lionking/text/official/tlkscras.txt)
Jaguaretê (áudio)
(Milton Nascimento - Fernando Brant, 1987
Senhora do fogo, Maria, Maria
Onça verdadeira, me ensina a ser
realmente o que sou
Põe a sua língua na minha ferida
Vem contar o que eu fui,
me mostra meu mundo
Quero ser jaguaretê
Meu parente, minha gente,
Cadê a família onde eu nasci?
Cadê meu começo, cadê meu destino e fim?
Para que eu estou por aqui?
Senhora da noite, senhora da vastidão
Ouvir pegadas e pegar
Seguir a sina de sangrar prá se alimentar
Tem de guerrear, lutar, matar prá sobreviver
Pois assim é a vida
Quem vem lá? É onça que já vem comer
Quero ser a onça, meu jaguaretê
Quero onçar aqui no meu terreiro
Vou onçar sertão e mundo inteiro
Já está na hora da onça beber o seu
Vou dançar com a lua lá no céu
Dama de fogo, Maria, Maria,
Onça de verdade, quero ter a luz
Ouvir o som caçador
Me diz quem sou, me diz quem fui
Me ensina a viver meu destino
Me mostra meu mundo, quem era que eu sou
Programa
Introdução á Antropologia Teológica. Teologia e Filosofia.
O problema do método. A linguagem e a metodologia da Antropologia. (etimologias - voz média; Neutro)
Linguagem e percepção do mundo. O sistema Língua/pensamento: o caso semita (confundente - Álgebra - provérbio)
Os Orientes e o Ocidente. Deus e o Homem nas religiões.
Participação, Criação e Graça na Antropologia Cristã.
Liturgia e Antropologia.
Arte e Mística.
Unidade e diversidade da Idéia de Homem em Diferentes Culturas e religiões. (prudentia - acídia)
Cronograma do bimestre (turmas de 2a.f. à noite e 4a.f. de manhã)
Dia 26-10 (2ª. f. noite) 28-10 (4ª. manhã) Um exercício de Exegese
Dia (2-11 noite: feriado) 04-11 (4ª. manhã) Conferencista convidada: Profa. Chie Hirose
Dia 09-11 (2ª.f. noite) / Dia 11-11 (4ª. manhã) O Islã e o cristianismo
Dia 16-11 (2ª.f. noite) // Dia 18-11 (4ª. manhã) A virtude e a Antropologia
Dia 23-11 Trabalhos dos alunos da manhã / Dia 25-11 Trabalhos dos alunos da noite
Dia 30-11 Prova dos alunos da manhã / Dia 2-12 Prova dos alunos da noite
Dia 07-12 Ver Prova manhã // Dia 09-12 Ver Prova Noite
Bibliografia Básica: Além do que indicaremos em aula/site, os textos do curso estão no livro:
Lauand, Jean Filosofia, Linguagem, Arte e Educação, São Paulo, ESDC, 2007
Bibliografia Complementar: Além do que indicaremos em aula/site, dois livros importantes:
Lauand, João Sérgio: Antropologia e Ética I, São Paulo, CEMOrOc-Feusp, 2009
Lauand, João Sérgio: Antropologia e Ética II, São Paulo, CEMOrOc-Feusp, 2009